Mais de 500 mil pessoas acessaram os espaços oficiais da COP30 ao longo dos 12 dias da conferência em Belém (Leandro Fonseca /Exame) “Se pudéssemos voltar no tempo e conversar com nós mesmos na Rio-92, o que aquelas versões de nós nos diriam ao olharem para os resultados de hoje? Certamente nos diriam, antes de tudo, que sonhávamos com muito mais”. A reflexão da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, capturou o sentimento que marcou o encerramento da COP30 em Belém, realizada pela primeira vez no coração da Amazônia. Dez anos após o histórico Acordo de Paris, a conferência climática fechou suas portas na capital paraense com avanços históricos e processos inovadores na diplomacia brasileira, mas com uma ambição climática que organizações ambientais e especialistas consideram “perigosamente distante” das recomendações da ciência para limitar o aquecimento global a 1.5ºC até 2030. Para organizações, a COP30 será lembrada especialmente por conquistas que transcenderam os textos formais e as salas de negociação. A decisão da presidência brasileira de criar os dois roteiros paralelos de combate ao desmatamento e fim dos combustíveis fósseis, foi saudada como um “avanço sem precedentes”, após a frustração pelas menções terem ficado de fora do acordo final. “Embora não seja uma decisão desta COP, este anúncio permite caminharmos rumo ao fim dos fósseis, principal fonte dos gases que estão alterando o clima em todo o planeta. Estamos saindo de uma situação de completo silêncio para outra em que o tema está sobre a mesa”, destacou Maurício Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil. Especialistas celebram resultados importantes: a reestruturação da Agenda de Ação da presidência da COP que segue até novembro de 2026 e a mobilização de 117 planos para acelerar soluções em larga escala, envolvendo setores em todo mundo. Além disso, avanços mesmo que tímidos em financiamento climático para países em desenvolvimento foram endossados na decisão do mutirão e prometem mobilizar fontes públicas e privadas para alcançar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035. O lançamento do Fundo de Florestas Tropicais (TFFF) destinado a financiar a preservação ambiental em países tropicais foi destacada como um dos principais legados e aportou mais de US$ 6,5 bilhões, com o anúncio mais recente de 1 bilhão de euros vindo da Alemanha. Ao todo, 69 países investiram no mecanismo. Mirela Sandrini, diretora executiva do WRI Brasil e membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, destacou que o Brasil como país anfitrião conclamou à comunidade internacional o mote da “COP da implementação”, mostrando que há soluções e liderança rumo à transição para uma economia de baixo carbono. A especialista complementou que houve o reconhecimento da necessidade de uma transição justa, assim como a menção dos direitos de povos indígenas em três textos diferentes. “O Brasil e os países ricos em florestas colocaram o TFFF no centro do debate. Por outro lado, a resposta à lacuna de implementação das NDCs ficou aquém”, alertou. Ao final da conferência, mais de 118 países atualizaram suas metas climáticas até 2035. Financiamento para adaptação O compromisso de triplicar o financiamento para adaptação até 2035, chegando a aproximadamente US$ 120 bilhões, foi recebido com cautela pelas organizações. Embora represente um avanço, o valor e o prazo foram considerados insuficientes diante da urgência climática. Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, destacou que a decisão do mutirão ainda fica bastante aquém da crise que vivemos. “Não há resposta necessária ao problema central das metas climáticas (NDCs): a falta de alinhamento com a trajetória de 1,5°C. Há reconhecimento do desafio, há processos, há sinalizações — mas não há o salto político que a ciência exige”, reagiu. Benjamim Abraham, também do Talanoa, disse que os países vulneráveis ao clima esperavam maior ambição, “mas a decisão ainda pede de forma inequívoca que as nações desenvolvidas aumentem imediatamente sua provisão de recursos”. O Instituto Clima e Sociedade reconheceu que “há limitação e preocupações com as decisões sobre adaptação, um tema que não deveria ser despriorizado, à medida que o mundo todo vive eventos climáticos extremos com maior frequência e intensidade”. As grandes lacunas: combustíveis fósseis e desmatamento A principal frustração foi a ausência, nos textos oficiais, de mapas claros para a transição dos combustíveis fósseis e para o fim do desmatamento até 2030. Mais de 80 países apoiaram propostas nesse sentido durante as negociações acalouradas, mas foram bloqueados por petroestados como Arábia Saudita e Rússia. Nas COPs, qualquer decisão exige o consenso da totalidade das 195 partes da Convenção Quadro da ONU (UNFCC), o que tornou a missão “quase impossível” para a presidência brasileira. Afra Balazina, diretora de Mobilização da SOS Mata Atlântica, lamentou a lacuna nas decisões finais: “A COP30 foi bem-sucedida em colocar na mesa os dois temas centrais para enfrentar a crise climática, entretanto ficaram de fora apesar dos esforços do governo brasileiro e da presidência da COP”, disse. Especialista também ressaltaram que os processos paralelos criados pela presidência brasileira podem representar uma oportunidade importante e que deve começar na cúpula convocada pela Colômbia em abril de 2026. “Mantém viva a agenda e respondem a uma demanda muito forte da sociedade civil e de vários países”, destacou Fernanda Bortolotto, da TNC Brasil. A TNC acrescentou que ao estabelecer esses caminhos paralelos, “abre-se uma janela para que, na próxima COP, com mais evidências, propostas mais maduras e maior pressão política, esses temas retornem com força”. Lina Barrera, vice-presidente sênior de Política Global da Conservation International, também reconheceu que mesmo que as partes não tenham conseguido chegar a um acordo formal sobre roteiros nacionais, “a direção da viagem é clara. Essas conversas, e o impulso por trás delas, continuarão.” Manuel Pulgar-Vidal, líder global de clima e energia do WWF, foi enfático ao dizer que a ‘COP da Verdade’ não entregou nem um roteiro e nem soluções reais para os desafios urgentes. “Em vez disso, fomos levados em um carrossel de ilusões – distraídos por promessas coloridas, mas deixados com um documento fraco e sem substância devido aos jogos jogados pelas forças contra a ambição climática“, afirmou. Multilateralismo ‘resiliente’ em tempos difíceis Organizações também destacaram a resiliência do multilateralismo diante de um cenário geopolítico desafiador e complexo. O Instituto Clima e Sociedade celebrou “o multilateralismo e a capacidade de encontrar consensos para honrar o Acordo de Paris“, destacando que “também deve ser reconhecida a decisão da presidência brasileira de conduzir os mapas do caminho em um cenário difícil de oposições“. “As decisões adotadas apresentam ao mundo o conceito de “mutirão”: um trabalho conjunto, com roteiros e tarefas claras, e a identificação de desafios e oportunidades